Breaking Bad da vida real

A química está presente no dia-a-dia de todos, seja para o bem ou mal. Patrick Vailatti, que é profissional na área, explica os riscos, benefícios e males de composições que afetam as pessoas de forma direta

Por Aline Christina Brehmer 11/03/2019 - 09:56 hs
Foto: Aline Christina Brehmer/Jornal Café Impresso
Breaking Bad da vida real
Patrick Vailatti é químico e diretor da empresa LaboPrime, localizada em Timbó

O que uma análise feita na água e a confecção do ecstasy têm em comum? Alguns compostos. O exemplo, citado pelo químico Patrick Vailatti, demonstra o poder que a química exerce de forma direta no dia-a-dia das pessoas.

A comparação é feita justamente com base no laboratório que foi descoberto semana passada em Rio dos Cedros, que tinha como finalidade a produção da droga sintética. Como Vailatti mesmo frisa, “a química é uma área perigosa e que pode ser usada para os dois extremos: bem ou mal”.

E prova disso é o fato de que essa descoberta, na cidade vizinha de Timbó, tinha toda sua produção inspirada na série “Breaking Bad” (que na tradução brasileira significa Química do Mal) – um caso no qual a realidade imita a ficção.

Na série o professor de química Walter White, interpretado pelo ator Bryan Cranston, descobre que está com câncer em fase terminal e determinados acontecimentos o levam a começar a produzir ecstasy (MDMA) em um trailer.

Em uma reportagem divulgada pelo site do jornal GaúchaZH (ClicRBS) nesta semana, o engenheiro químico responsável pela composição da droga em Rio dos Cedros revelou que esse seriado serviu como inspiração para o que ele fazia.

Reações explosivas

Vailatti destaca que mesmo no laboratório LaboPrime de Timbó, do qual ele é o diretor, os produtos utilizados e armazenados podem causar explosões, incêndios e outras tragédias.

“Aqui nós lidamos com itens altamente perigosos. Se um pingo de ácido concentrado cair na mão de uma laboratorista, pode furá-la completamente. Obviamente que nós temos todos os cuidados, inclusive com as roupas adequadas para realizar esses procedimentos”, pontua Vailatti.

Hoje, o laboratório realiza análises de água, solo, efluentes, entre outras. “Todos os dias recebemos amostras em diferentes situações e nossa missão é verificar se elas atendem ou não ao padrão de qualidade”, esclarece.

Química controlada

Por ser um trabalho muito específico, Vailatti diz que há poucos laboratórios na região que o realizam. “Os laboratórios que trabalham com análises clínicas, como de sangue por exemplo, não usam produtos tão controlados e perigosos como os solventes e ácidos que temos aqui”, compara.

Há um controle, tanto por parte da Polícia Federal (PF) quanto do Exército Brasileiro, que fiscalizam a utilização desses agentes químicos. “Todo mês precisamos apresentar um relatório do que compramos e utilizamos, porque cada item precisa ser licenciado por esses dois órgãos. A PF é mais voltada à questão de drogas, já o Exército foca sua atenção naqueles produtos que podem ser utilizados para a confecção de bombas”, explica o diretor da LaboPrime.

Produção e conhecimento

Diante desse controle, Vailatti ressalta que os compostos utilizados na produção do ecstasy também controlados. “Nesse caso ali, esses itens eram comprados pelo CPF, mas há um limite de 2 litros por pessoa a cada mês. Então várias pessoas acabaram se envolvendo na aquisição desses produtos”, comenta.

Já no que diz respeito à produção em si, ele é direto ao afirmar que somente uma pessoa que realmente entenda sobre o assunto consegue seguir a fórmula.

“É uma droga sintética que tem fórmula pronta, mas para seguir o que está ali é preciso um conhecimento elevado que, geralmente, tanto no seriado quanto na vida real, exige extremo conhecimento de química, por isso que esses profissionais acabam sempre estando presentes em situações assim. São vários equipamentos e reagentes diferentes para se chegar ao resultado desejado, isso em qualquer trabalho químico que seja realizado”, analisa.

Consumo de gasolina?

Outra comparação feita por Vailatti, em relação ao seu laboratório e ao que era feito em Rio dos Cedros, que confirma a tese do conhecimento acerca dos males e riscos, está na proteção.

No laboratório de droga sintética as pessoas foram encontradas usando macacões amarelos e máscaras que, por sinal, são idênticos aos que o personagem Walter White usa na série Breaking Bad.

“Eles mesmos sabem que a longa exposições àqueles reagentes faz mal. Para se ter ideia, há um solvente que é utilizado para fazer análise de resíduo de gasolina, que utilizamos aqui, que é similar ao solvente utilizado na produção da droga. A reação em si libera um gás tóxico e muito prejudicial, por isso eles (que produziam o ecstasy) se protegem ao máximo. Já as pessoas que consomem a droga, de certa forma, pegam todo esse mal e trazem diretamente para seu organismo”, comenta o químico.

Após a operação a PF divulgou que no laboratório de Rio dos Cedros havia matéria-prima para produzir aproximadamente 600 mil comprimidos de ecstasy e pode ser considerada a maior apreensão de droga sintética já feita no Brasil até hoje.

Frente a esse assunto, Vailatti destaca que na LaboPrime os funcionários também utilizam roupas especiais, além dos óculos de proteção, e menciona que até hoje nenhum acidente grave aconteceu no laboratório.

“Utilizamos solventes altamente inflamáveis que, a qualquer descuido, podem causar um incêndio muito grave. Para evitar qualquer problema temos uma sala antichamas, com extintor na porta”, relata.

“A química está presente na vida de todos”, Vailatti

Em uma infinidade de exemplos mencionados por Vailatti está a prova de que, seja para o bem ou mal, a química faz parte do dia a dia das pessoas. Desde produtos industrializados (sem exceção) até a água que é consumida e precisa passar por uma análise que confirme sua potabilidade.

“São feitos mais de 90 tipos de análises diferentes só para determinar se a água, hoje fornecida pelo Samae aqui em Timbó, é ou não potável. A água mineral boa precisa ter um PH acima de 7.35, já que o PH do sangue é, em média, 7.34. Se for menos que isso por causa oxidação no sangue, ou seja, envelhecimento. Também fazemos análise do tratamento que a empresa faz na água, para eliminar os efluentes, antes de devolvê-la ao meio ambiente. São exemplos práticos, mas extremamente importantes, de como a química é utilizada muito mais para o bem do que para o mal”, diz.

E, para comprovar como a química se faz presente na vida das pessoas já desde a escola, onde são feitos experimentos (inofensivos) durante as aulas, atiçando o interesse e curiosidade das crianças, Vailatti cita outro exemplo.

“Lembro de um que é bem simples. Consiste apenas na mistura de fermento e vinagre, que forma uma reação que libera CO². Então esse gás é utilizado para simular a erupção de vulcões, que são feitos com argila. É colocado um corante ali e essa composição seria, em tese, a lava. É um exemplo muito básico, mas que comprova a presença da química na vida de todos desde muito cedo”, reflete.

Efeitos do ecstasy a curto prazo

·         Raciocínio debilitado

·         Falsa sensação de afeto

·         Confusão mental

·         Depressão

·         Problemas para dormir

·         Ansiedade severa

·         Paranoia

·         Fissura pela droga

·         Tensão muscular

·         Desmaios e arrepios ou vômitos

·         Ranger involuntário dos dentes

·         Visão embaçada

·         Náusea

Efeitos do ecstasy (MDMA) a longo prazo

·         Danos cerebrais de longa duração, afetando o pensamento e a memória

·         Danos nas partes do cérebro que regulam funções como aprendizagem, sono e emoção

·         É como se o painel de controle do cérebro fosse destruído e depois remontado ao contrário

·         Degeneração das ramificações e terminações nervosas

·         Depressão, ansiedade, perda de memória

·         Falência dos rins

·         Hemorragias

·         Psicose

·         Colapso cardiovascular

Fonte: Mundo Sem Drogas (www.mundosemdrogas.org.br)